A importância da elaboração do luto na dependência química

Nossa vida no geral é permeada (do nascimento até a nossa partida) de situações de ganhos e perdas.
O sentimento de luto está presente em todo tipo de perda de questões consideradas fundamentais: a morte de alguém querido, a perda de um animal de estimação, de uma posição social, de um ideal, de um sonho, de uma esperança ou ainda de um sentimento vivido. O luto é algo inevitável após qualquer perda e não pode ser ignorado!

Muitos sentimentos vêm à tona durante o luto e muitos se questionam se o que estão sentindo é normal ou não. As emoções presentes são variadas e oscilam com uma intensidade que foge do estado conhecido de quando o indivíduo não estava enlutado. É um processo confuso e perturbador, mas, apesar de todo o desconforto, é um trajeto necessário para ocorrer a elaboração.

Importante considerar que o processo não deve ser apressado por amigos ou familiares, por mais bem-intencionado que seja o desejo de aliviar a angústia da pessoa enlutada, pois para alguns o luto pode levar mais tempo do que para outros. Da mesma forma como todos nós amamos de um jeito singular, também sofremos a perda de um jeito que não pode caber em um formato único, a forma de vivenciar a perda é singular para cada um.

E a forma de sobreviver ao luto é permitir que a dor exista, sem tentar encobri-la ou apressá-la, tudo precisa ter o seu espaço e o seu tempo certo.

No processo de tratamento e recuperação da dependência química, a questão do luto não é diferente, as perdas são muitas e precisam ser vividas e superadas.

Vejamos aqui alguns dos lutos necessários no processo de recuperação da dependência química:

  • A própria substância: a droga, o álcool, medicamento (ou outra substância) é uma velha amiga de quem muitas vezes se depende para afastar o “sofrimento”, para ajudar a sentir que há um certo controle sbbre cada situação.  O uso da substância é capaz de ilusoriamente proporcionar uma opinião e visão melhor sobre si mesmo. De repente o indivíduo fica sem sua “muleta” e vem aquele sentimento de que ele terá que “aguentar” tudo sozinho sem qualquer tipo de “alívio”. Parece insuportável pensar em enfrentar tanto sofrimento totalmente sóbrio. No entanto, através de seu despertar espiritual o adicto descobre que é possível viver bem sem a bebida e qualquer outra droga e assim começa a renascer.
  • Os amigos: quando se para de usar simultaneamente se deixa de lado um velho círculo de amigos (que antes usava a droga junto). Não é possível voltar mais a este círculo de amigos com os antigos hábitos, pois certamente haverá recaídas. Após a mudança de percepção durante seu processo de recuperação, o indivíduo começa a desenvolver a capacidade de construir novos relacionamentos, novos amigos – todos calcados em uma base mais sadia, longe do uso de qualquer substância. A incapacidade de modificar o comportamento dos outros já não lhe tirará mais o sossego, ele passa a aceitar que só pode mudar a si mesmo, ficando a partir daí a responsabilidade da recuperação para o próprio dependente químico.
  • Uma relação afetiva: quando um relacionamento amoroso termina por causa do uso de drogas, com frequência se perde não só esta pessoa, mas todo círculo de amigos e familiares em torno dessa pessoa. Isto cria um grande espaço de tempo vazio durante o qual o dependente químico normalmente se sente sozinho, sentimento bastante doloroso.  A antiga relação amorosa deste adicto, agora em recuperação, ainda que doentia, trazia a ilusão de segurança, pois de alguma forma ele já sabia se posicionar e lidar com ela. Por isso, o novo passa a ser muito ameaçador. Com uma nova percepção da realidade, o dependente químico em recuperação pode ser capaz de estabelecer dinâmicas de relacionamentos mais digna e saudável (seja com a mesma pessoa ou então em um novo relacionamento) e de um gratificante processo de evolução pessoal, emocional e espiritual, onde consiga se responsabilizar pelos próprios atos e sentimentos e voltar a ser feliz.
  • A família: A família geralmente é arrastada para um furacão quando um membro desenvolve a dependência química. Após tantas perdas, o adicto precisa a aprender a lidar com os membros da família desempenhando um papel bem diferente de quando usava drogas. Inevitavelmente ele se sentirá muito perdido em relação a este novo papel pois o fim dos papéis adotados anteriormente e vividos dentro desta dinâmica familiar doentia, representa um luto, tudo agora se torna diferente. Com o evoluir do tratamento adequado a família (assim como o dependente) encerra o processo de luto e finalmente aceita a morte de seus relacionamentos dependentes e doentios. E assim tanto o dependente quanto os familiares conseguem conquistar serenidade e a determinação para construir uma “nova” vida.
  • Emprego: Muitas vezes o uso de drogas foi a causa da perda de um emprego (ou mesmo de uma série de empregos). Isto pode ser uma perda extremamente difícil se o sentimento de identidade dependia deste emprego. Para muitos, uma grande parte da autoimagem está associada ao que se faz para ganhar a vida; um processo difícil a ser enfrentado. No entanto, com o resgate total de sua vida, o adicto pode ser capaz de resignificar seu trabalho, sua missão e buscar garra para conquistar (ou reconquistar) seu espaço profissional.
  • A autoimagem e a auto estima: Sob a influência de substâncias químicas, o adicto acreditava que cuidava bem de sua família, que era responsável e carinhoso, pensava que controlava as situações e que a droga não o prejudicava ou aos que estavam ao redor. Mas quando se toma a decisão de parar, ele começa a tomar consciência de que não era esse o caso e sim que não tinha o controle sobre a adicção ou sobre nenhuma situação.

Tomar consciência disso constitui um terrível golpe para a maioria e destrói a autoestima e as ilusões a seu respeito. Ele acaba se vendo como alguém destruído, desamparado e sem espaço em nenhum lugar. Passando por um tratamento aonde o adicto realmente comece a se encontrar ele passará a lidar com as perdas de forma mais tranquila e começará a desejar e investir na recuperação enfrentando o fim de seus relacionamentos doentios e resgatando sua própria vida, bem como sua autoestima e a autoconfiança.

Quer se esteja apenas começando a se recuperar da dependência química ou de outro tipo de dependência ou mesmo se encontre há vários anos num programa de doze passos, o luto é uma coisa que todos enfrentam ao longo da vida.

A perda e o luto fazem realmente parte da vida e não há como fugir deste fato. Ninguém nunca está preparado para lidar com nenhuma perda ou para desapegar de coisas que gosta ou está acostumado, inclusive o ser humano tem a tendência de ficar preso a algo mesmo quando não quer mais, como no caso, a droga.

Devemos entender que é necessário viver o luto em todas as suas fases, porém é preciso superar. E o superar não é esquecer nem fingir que nada aconteceu, significa aceitar e continuar a viver, retomar sua rotina, seu trabalho, voltar-se para seus amigos e demais familiares.

Nesse processo, a vivência da fé, para aqueles que creem, é de fundamental importância, pois ajuda a entender que o sofrimento faz parte da condição humana, e a morte e as perdas acontecem para todos, sem exceção.

Quando tudo isto é entendido pelo dependente químico, a recuperação e o resgate pleno de sua vida passam a não ser mais um fardo e acabam se tornando um motivo para entusiasmo diário.

Equipe terapêutica
Clínica Grand House
www.grandhouse.com.br
Tel: 11 4483-4524 

Siga-nos em nossas fan pages:
Clínica Grand House
Clínica Grand House – Por Uma Vida Sem Drogas
Por Uma Vida Sem Drogas

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s