O vazio existencial e a dependência

A dependência química faz parte de um grande grupo de dependências, existem outras dependências, como por exemplo: trabalho, comida, jogos, sexo, relacionamentos, compras – entre inúmeras outras.

Porque razão as pessoas procurariam os caminhos que levam às dependências? Há muitas explicações psicológicas, psiquiátricas, genéticas e espirituais para isso.

Compreende-se que na base da dependência geralmente encontra-se um indivíduo com algum transtorno na personalidade, com dificuldades em enfrentar a vida em determinadas situações, sentimentos de baixa autoestima, e que acaba optando por uma fuga, um deslocamento para o objeto do qual se torna dependente.

Outras possibilidades são: dificuldades em lidar com limites (impostos pela vida, em relação ao prazer e aos riscos) e presença daquilo que chamamos de patologias de base, como os transtornos afetivos.

Os dependentes de forma geral, independente de qual seja sua dependência, se apegam ao objeto de sua dependência, buscando muitas vezes um prazer que possa preencher um grande “vazio interior”.

As dependências podem ser entendidas se reconhecermos o vazio existencial – a ausência de sentido para a vida – subjacente a eles. Daí o porquê a dependência acaba “capturando” as pessoas – por que “preenche” o vazio existencial (na realidade entorpece, anestesia, para que o vazio não seja sentido).

O chamariz da droga seria uma sensação agradável de curta duração. É o aspecto agradável da sensação que a faz desejável, e é a sua curta duração que gera a dependência, pois logo que passa a sensação agradável é preciso que rapidamente seja fornecida a próxima dose do vício, do contrário a sensação agradável logo se transforma em desagradável.

Do ponto de vista biológico, encontramos alterações genéticas. Nosso cérebro usa um sistema do tipo recompensa para garantir que persigamos e obtenhamos as coisas de que precisamos para sobreviver. Por exemplo, um estímulo vindo de fora (a visão de alimentos, digamos) ou do corpo (níveis de glicose em queda) é registrado pelo sistema límbico, que cria um impulso que é conscientemente registrado como desejo. O córtex então instrui o corpo a agir para realizar seu desejo. A atividade envia mensagens de resposta ao sistema límbico, que libera neurotransmissores – opióides internos que elevam os níveis circulantes de dopamina e criam uma sensação de satisfação.

Segundo pesquisas recentes de geneticistas, algumas pessoas teriam dificuldades em obter satisfação da vida, e teriam a síndrome de deficiência da recompensa (biologicamente poderíamos assim explicar as compulsões) e por isso nunca conseguem o suficiente daquilo que querem: alimentos, drogas, jogos, sexo, etc.

Esses geneticistas suspeitam de que um determinado gene (alelo D2R2), que é encontrado em 70% dos dependentes químicos, comedores compulsivos e jogadores patológicos, é o responsável por parte do comportamento. Na presença desse gene a dopamina seria impedida de se ligar a células nas vias de recompensa e a sensação de prazer que as pessoas têm com a liberação desse neurotransmissor seria reduzida.

Dentro desta perspectiva, é possível repensar a questão da dependência sob dois aspectos: o usuário começa a consumir a droga porque não encontra prazer ou sentido na vida, e/ou após o uso da droga encontra algo que o motive a continuar vivendo, mesmo que isso signifique a abreviação de sua existência.

Cada ser humano é único, e sua história de vida, singular. O sentido também varia de pessoa para pessoa, e muda no decorrer da vida em virtude da situação que se lhe apresenta.

Sendo assim, a busca de sentido determina toda e qualquer ação humana. Independentemente de o resultado trazer consequências boas ou ruins, o sentido é o que motiva as nossas escolhas. E esta busca, quando frustrada, provoca o vazio existencial.

Por outro lado, se tal indivíduo ao tomar consciência das implicações dos seus atos, e apesar de todo sofrimento, continuar resistente em procurar tratamento, sua condição de dependência pode estar permeada por um sentido – pelo qual vale a pena viver ou morrer. E este sentido precisa ser reconhecido para que se possa lidar de forma efetiva com o fenômeno da dependência.

No caso da dependência química, é preciso considerar que, a privação do consumo de drogas (ou de qualquer outro objeto de compulsão e dependência) implica em sofrimento físico e psíquico, o que impulsiona o usuário a evitar a abstinência. No entanto, o seu uso, além de atenuar (mesmo que ilusoriamente) este sofrimento, traz consigo benefícios para o indivíduo (sensação de prazer, alienação, atenção dos familiares, etc.).

É comum o dependente atribuir culpa a algo fora de si, numa tentativa de justificar suas escolhas. Ao procurar esquivar-se da culpabilidade, o dependente passa a viver em função de algo ou de alguém que a seu ver, tem o poder de decisão sobre a sua vida.

Assumir a responsabilidade é o ponto de partida para o tratamento contra qualquer dependência, principalmente a dependência química. Responsabilizar-se por suas escolhas – conscientes ou inconscientes, significa apropriar-se da sua própria condição humana. Agindo assim, o indivíduo será livre para escolher a atitude pessoal frente a toda e qualquer circunstância.

Durante o tratamento contra a dependência química, é função do terapeuta, desafiar o usuário com um sentido em potencial a ser por ele realizado. Somente assim despertaremos do estado latente a sua vontade de sentido.

É importante ressaltar que, o sentido da vida ou o vazio da existência é peculiar a cada ser humano. Cada qual tem sua própria vocação ou missão específica na vida. O que importa não é o sentido da vida de um modo geral, mas antes o sentido particular da vida de uma pessoa em determinado momento.

A descoberta de um sentido é o que irá preencher esse vazio existencial – ocasionado pela abstinência da droga, e nortear a vida do dependente químico durante e após o tratamento. E é o sentido que irá prevenir contra possíveis recaídas.

O vazio existencial pode ser entendido, preenchido, amenizado, acolhido e abraçado em diversas circunstâncias – seja através do trabalho que proporciona ao indivíduo um sentido de utilidade e bem-estar; com a religião que consegue dar ao indivíduo um sentido e sentimento de transcendência; através da Psicologia que proporciona ao cliente um verdadeiro mergulho na sua essência, possibilitando-o entender-se e aceitar-se tal como verdadeiramente é – entre diversos outros recursos.

Independente do momento vivido ou da dificuldade a se enfrentar, assumir uma postura de esperança frente às circunstâncias da vida significa apropriar-se de si, e buscar um sentido que proporcione uma forma de viver autêntica e em plenitude.

Equipe Terapêutica
Clínica Grand House
http://www.grandhouse.com.br
Tel: 11 4483-4684

 

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